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O amor romântico - isso existe?

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Francisco Sulo
Por ocasião de mais um 12 de junho convém a pergunta: Existe o amor – o amor romântico?
A pergunta deve ser tão velha quanto o primeiro casal, mas nunca deixa de ser pertinente, motivando, inclusive, uma série de pontos de vista sobre se realmente existe o amor que aproxima e mantém unido um casal “até que a morte os separe”. Não tenho a capacidade de avaliar ou apresentar todos os pontos de vista, mas segue uma apresentação de alguns deles, para favorecer uma análise de quem quer que tenha acesso ao texto. Não vou consultar a bibliografia que tenho em mente em razão do tempo de que não disponho, então poupem-me de críticas academicistas ou puristas. Assim como Manuel Bandeira, estejamos fartos do “lirismo comedido” (ou qualquer tipo de “ismo” restritivo hoje).
Nossa formação cristã nos põe em contato com o amor romântico desde a infância. Aprendemos sobre como Isaque amou Rebeca à primeira vista e como Jacó sofreu ao perder Raquel no nascimento de José. Sansão fez bobagen…

É o peba! - Crônica biquense

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Por Juvenal das Neves
Mês de abril. Tempo nublado, mas muito quente. E apesar de ser pouco mais de meio dia, um mormaço anunciava que o “inverno” não iria embora tão cedo.  Debaixo da sombra agradável do tijupá,  seu Zeca da Timbaúba, senhor de uns sessenta anos, mas muito vigoroso para sua idade, madorrava em cima de uma esteira de olho de palha, pitando seu cachimbo, enquanto seus dois netos, Zizi e Chiquim  de sete e cinco anos respectivamente, brincavam na areia, sob o beiral do abrigo de palha.
Súbito um pequeno cachorro entra  abanando o rabo, e, mostrando o excelente faro de cachorro magro, logo encontra um osso já coberto de formigas – o almoço tinha sido nambu com leite de coco. Logo em seguida outro visitante adentra o barraco, dessa vez era Zé Pretim o dono do “rajado”. Zé Pretim, um negro de meia idade e compleição robusta era vizinho de roça do seu Zeca, e todo os dias, religiosamente na hora do almoço ia tirar uma prosa com o velho, que não reclamava, mas ficava torcendo …

A caeira, capítulo IV

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IV
Naquele feriado de São João Batista só Tinoco trabalhou. Seus pais nunca foram católicos e Zulmira manteve a frequência à igreja evangélica com o filho e Martinha, a filha, pelo menos todos os domingos. Mas à tarde estava livre para brincar com os amigos. Naquela tarde reuniram várias alpargatas havaianas velhas, latas vazias de óleo comestível e palhas secas de babaçu.
O trabalho de confeccionar ônibus de latas de óleo consistia de várias etapas cuidadosas para que resultassem  num carro perfeito. Não bastava ser bonito, tinha que apresentar certa graça enquanto era puxado pelas estradas desenhadas na terra,  pela enxada velha. Acertar no tamanho das molas era o segredo. Se ficassem muito estreitas poderiam deixar o carro muito baixo, atrapalhando o trabalho dos pneus; se muito largas, rígido demais, o que não era um critério de perfeição para os rapazes.
Primeiramente se amassavam sensivelmente as circunferências da lata de óleo, nas duas extr…

Literatura numa perspectiva biquense: A caeira, capítulo III

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III
– Ei, Zezin! Não esquece de ir lá pra casa agora!
– Tá bom, eu vou! Só vou deixar o caderno em casa e pedir pra mãe.
– Juntei umas latas vazias pra gente fazer uns ônibus novos. Mas não esquece a bacia de bicicleta pra fazer os pneus.
– Claro, eu levo!
Enquanto a noite chegava Tinoco, Zezin e Toín costumavam brincar no quintal de casa, de qualquer deles. Apesar das idades deles nunca tinham perdido o gosto pela brincadeira com os ônibus que eles mesmos confeccionavam e dos quais se orgulhavam. Brinquedos de plástico eram luxo de meninos de famílias com mais posses, o que não era o caso de qualquer dos três. Mesmo o tempo de brincadeiras era resumido, pois dedicavam muito tempo para ajudar os pais, fosse quebrando coco, como Tinoco, ajudando o pai na roça, como Toín sempre fazia, ou no trabalho do açougue, onde Zezin ajudava o seu João.
– Cadê o Toín?! – Perguntou Tinoco sobre o amigo que não viera junto com Zezin.
– Ah, não sei! – Disse, encolhend…

[Opinião] Incoerências da "geração moral"

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Um espectro ronda a classe trabalhadora, o espectro do desapontamento. E ele se deve ao fato de que muito do que se difunde sobre políticos e partidos não terem ideologia é em si mesmo já uma afirmação ideológica. Como tal, esta falseia a realidade e arregimenta ingênuos a enfileirarem-se nas trincheiras do opressor para lutarem por ele.
O fato da corrupção ser multipartidária não justifica que vejamos os políticos e os partidos como a-ideológicos, como se não representassem interesses para além dos seus próprios, mesquinhos e vaidosos. O Congresso Nacional é palco de conflitos de interesses que vão desde os mais conservadores anseios morais às tentativas mais cruéis de flexibilização das relações de trabalho em favor do lucro empresarial. A corrupção política é exatamente a contraparte ou o lucro que os políticos auferem para permitirem que cada interesse seja garantido, sendo que eles próprios compartilham interesses que coincidem ora com este ora com aquele segmento social. E há m…

Literatura numa perspectiva biquense: A caeira, capítulo II

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Acompanhe aqui o primeiro capítulo:

II
– Manda mais palha, moleque! – bradavam vários daqueles homens naquela manhã ensolarada de domingo.
– Calma, calma! – respondia Tinoco, aborrecido. Só sou um.
A casa de taipa dispunha de sete caibros de cada lado. Como Toín, a quem o pai enviara em seu lugar, faltara naquela manhã, Zito se apoderou de dois.
– Deixa esse aí sem amarrar, Zito! – Recomendou o João do Açougue, com ar sapiente. E na verdade não era a primeira casa que ajudava a cobrir. Aliás, sempre o fazia na condição de maestro da obra, ficando sempre numa das extremidades da coberta, recebendo as primeiras palhas e conduzindo aquilo que para ele sempre era uma atividade gratificante, em que as conversas, as brincadeiras, as pingas ao final do serviço e, quando havia, a leitoa ou mesmo uma caça, coroava a boa ação já perto do meio-dia.
Tinoco era um menino corpulento mas ativo. Tinha 13 anos. O sol daquela manhã fazia reluzir sua pele negra suada. Seus olhos puxados e espremidos pelas boc…

Literatura numa perspectiva biquense: A caeira, capítulo I

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I
A água respingava no chão da sala naquela tarde de chuva intensa. A coberta de palha já não tinha a mesma resistência de há dois anos. Durante o dia, frestas de luz do sol já indicavam a caducidade daquelas palhas, que não iriam resistir até o final do inverno.
Tinoco se encolhia no fundo da rede de garimpeiro. Como o lençol do profeta, a rede já não era o suficiente pra abrigá-lo: quando recolhia a cabeça sobravam os pés, que esfriavam mais e mais enquanto respingavam pequenas gotas de chuva que atravessavam a coberta de palhas já velhas e estragadas.
Naquele dia estivera com a mãe durante toda a manhã quebrando coco. Tinha levantado cedo, sob os gritos roucos dela, que reclamava dos efeitos do sereno da madrugada sobre a sua saúde. Rumaram para o mato logo depois de digerido um pouco de café com farinha de puba. Ao retornar do mato Tinoco foi à escola. Dormira boa parte do tempo, encostado na parede ao fundo da sala de aula; as cadeiras não tinham encosto. A professora o trouxe para …